Memórias e Vislumbrações
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*GUARDA CHUVA,
Walderes Brito
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"Guarda-Chuva", para simplificar, podia muito bem ser o nome de cisterna - sopa de fonemas que não remete à idéia de "guardar água", que o guarda-chuva sugere, mas não faz. Pela imagem, o que me vêm à mente é a figura do tio Zé Silvestre ("Siliveste", em nordestinês do Agreste Meridional de Pernambuco), o mais alto, mais cheiroso e elegante da família, dono de uma técnica única de dançar um forró metido a valsa, sem suor nem remelexo de quadris, evoluindo com a dama como quem desliza ou voa... Nunca andava sem um guarda-chuva, daqueles pretos, enormes e empertigados, para proteger das raras trovoadas daquelas paragens.
Por outras paragens, guarda-chuva é só arremedo de sombra sob o qual se abriga qualquer vivente, tema ou causa - inclusive o "Sentidos Simultâneos" que, por 12 meses e um tanto, deu guarida a um grupo que se queria bem e hoje se quer ainda mais, pela cumplicidade de compartilhar criações, no método das emboladas: um diz o mote e os demais versejam visualidades poéticas brotadas daquelas sementes.
Infinito por forma e natureza, o tempo da construção coletiva não começa nem termina nos oito que deram existência ao "Sentido Simultâneo" que, doravante, é livro impresso, sempre disponível a leituras, releituras e palimpsestas reescrivinhações. Nem bem fechou a temporada, já foi mote para outros laboratórios de intervenções da rede que cria vínculos e grava percursos de gentes que curtem brincar de fazer de guarda-chuva, sombrinhas, bengalas, cenários, imagens, poemas e um sem-fim de coisas. E da vida também.
Por Walderes Brito
Por outras paragens, guarda-chuva é só arremedo de sombra sob o qual se abriga qualquer vivente, tema ou causa - inclusive o "Sentidos Simultâneos" que, por 12 meses e um tanto, deu guarida a um grupo que se queria bem e hoje se quer ainda mais, pela cumplicidade de compartilhar criações, no método das emboladas: um diz o mote e os demais versejam visualidades poéticas brotadas daquelas sementes.
Infinito por forma e natureza, o tempo da construção coletiva não começa nem termina nos oito que deram existência ao "Sentido Simultâneo" que, doravante, é livro impresso, sempre disponível a leituras, releituras e palimpsestas reescrivinhações. Nem bem fechou a temporada, já foi mote para outros laboratórios de intervenções da rede que cria vínculos e grava percursos de gentes que curtem brincar de fazer de guarda-chuva, sombrinhas, bengalas, cenários, imagens, poemas e um sem-fim de coisas. E da vida também.
Por Walderes Brito
Ainda
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*GUARDA CHUVA,
Adriano Antunes
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Dá-me teu beijo rápido
E teu sorriso tímido
Num abraço úmido
Para eu sentir teu cheiro.
Dá-me tua presença discreta
Em frase curta, incompleta
Silêncio roubado de outros tempos.
Dá-me tua ira controlada
Tua cor sóbria
Tua paz, tua dor
Enfim... Dá-me o que for.
Pois de guarda chuva aberto
No sol que ainda queima
Um coração febril teima
Esperar pelo teu amor.
Por Adriano Antunes
Por Adriano Antunes
Onde é que eu fui parar?*
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*GUARDA CHUVA,
Cristian Mossi
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Por Cristian Mossi(*) Imagens e título do post retirados do clipe da música "Longe" de Arnaldo Antunes.
Buraco do Tatu
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*CHAGA,
Walderes Brito
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Esse era o nome do lugar mais misterioso e proscrito da, agora, sesquicentenária São Bento do Una, minha cidade de origem. O motivo era óbvio: Buraco do Tatu era o lugar dos cabarés para onde os homens da cidade escapuliam no breu da noite e onde as quengas se escondiam durante o dia, em casebres de taipa sem reboco, no caminho do esgoto que escorria de toda a Avenida Manoel Cândido e da Rua Cira Mota, vindos tanto do nascer quanto do pôr-do-sol. Quem estudava no Colégio Estadual precisava dar uma volta quase lá pela Cilpe ou pela rua do Armazém dos Cadetes só para não cruzar nenhum dos proibidíssimos becos do Buraco do Tatu. Menina, então, dependendo da piedade cristã da família, não podia nem pronunciar o nome... Meninos ficavam na dúvida, alguns ansiosos outros aflitos, se o pai um dia ia arrastá-lo pra lá, como quem atravessa o portal de acesso ao universo dos machos. Isso durou mais de dois terços dos 150 anos de São Bento, até que um prefeito messiânico com nome composto resolveu “cristianizar” a cidade, tirando as putas para um canto afastado e transformando o lendário Buraco do Tatu numa insossa Rua da Alegria, que tá lá até hoje. Quem sabe, porém, que por baixo dessa Alegria jaze um Buraco do Tatu ainda passa cabreiro por aquelas imediações.
Por Walderes Brito
No Buraco da Fechadura
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*CHAGA,
Adriano Antunes
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[o olho no buraco é tão culpado quanto quem pratica o ato]
Falo dessa chaga
que o povo gosta
dessa praga exposta
da violência e culto ao corpo
que a educação, coitada, não trava
e por efeito oposto
vaga cadeira na fileira
da coerência e do bom gosto.
O povo gosta
e isso não me admira
da rotina alienada
que contamina a retina
promovendo o fútil
eliminando o útil
distorcendo a razão.
Porque o povo gosta
da lama na qual se afunda
da bunda que rebola
da mão que pede esmola
do dedo no gatilho
da arma que atira
e do corpo que apodrece
no meio-fio do dia.
O povo gosta e se entorpece
dos valores e princípios esquece
mais vale ser esperto, é certo,
pois inteligência exige esforço.
O Povo gosta
de lamentar as feridas
que suas mãos manchadas, dedicadas,
esculpiram para si.
Ah! Esse povo gosta!
E nessa ronda desesperada
dou gargalhadas de tristeza
por capricho da natureza
não descarto o fato
de um dia ter sido assim.
Por Adriano Antunes
Falo dessa chaga
que o povo gosta
dessa praga exposta
da violência e culto ao corpo
que a educação, coitada, não trava
e por efeito oposto
vaga cadeira na fileira
da coerência e do bom gosto.
O povo gosta
e isso não me admira
da rotina alienada
que contamina a retina
promovendo o fútil
eliminando o útil
distorcendo a razão.
Porque o povo gosta
da lama na qual se afunda
da bunda que rebola
da mão que pede esmola
do dedo no gatilho
da arma que atira
e do corpo que apodrece
no meio-fio do dia.
O povo gosta e se entorpece
dos valores e princípios esquece
mais vale ser esperto, é certo,
pois inteligência exige esforço.
O Povo gosta
de lamentar as feridas
que suas mãos manchadas, dedicadas,
esculpiram para si.
Ah! Esse povo gosta!
E nessa ronda desesperada
dou gargalhadas de tristeza
por capricho da natureza
não descarto o fato
de um dia ter sido assim.
Por Adriano Antunes
Chagas Marinhas
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*CHAGA,
Odailso Berté
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Por Odailso BertéFoto: Francisco Pedro / Projeto Lixo Marinho - Global Garbage Brasil
Imagem capturada em:
http://www.globalgarbage.org/Imagem capturada em:
"Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem..."
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*CHAGA,
Cristiano Casado
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"Se a alguém causa inda pena a tua chaga,Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!"
(Trecho de "Versos Íntimos", de Augusto dos Anjos)
Por Cristiano Casado
Imagem: "Christ of Saint Jonh of the Cross", de Salvador Dalí
Imagem: "Christ of Saint Jonh of the Cross", de Salvador Dalí
Dores Impressas
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*CHAGA,
Wolney Fernandes
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Não muito longe estão os pensamentos daquele garoto indefeso, ingênuo, que tentava se proteger do mundo sendo o filho exemplar, o garoto estudioso, o menino que nasceu pra ser padre. Adolescente com grandes olhos que percorriam terreiros, estradas, rodapés... e nunca os horizontes. Roupas engomadas, sem cor. Aquela forma de sentar com as mãos cruzadas sobre as pernas e costas arqueadas.
Aquele que se escondia na alegria dos desenhos riscados em troca de amizades de recreio. O garoto desengonçado, cabeça grande e meio gago, que crescia no banco da igreja lendo histórias em quadrinhos.
Os sonhos porém eram muito vivos, de um brilho profundo que refletiam misteriosas ondas de inquietação que se podia sentir à distância. Alegria, confusão, tristeza e medo, tudo era possível sentir nas marés daquele olhar solitário que teimava em ignorar as dores sentidas pelas chagas que sulcavam seu corpo que, até então, era só alma.
Vontades introvertidas de voar de cima do pé do Flamboyant para alcançar os espaços, as vontades do corpo e liberdades que lhe eram negadas. Flutuar por sobre as dores impressas, acenando para a própria imagem refletida nelas.
Por Wolney Fernandes
Aquele que se escondia na alegria dos desenhos riscados em troca de amizades de recreio. O garoto desengonçado, cabeça grande e meio gago, que crescia no banco da igreja lendo histórias em quadrinhos.
Os sonhos porém eram muito vivos, de um brilho profundo que refletiam misteriosas ondas de inquietação que se podia sentir à distância. Alegria, confusão, tristeza e medo, tudo era possível sentir nas marés daquele olhar solitário que teimava em ignorar as dores sentidas pelas chagas que sulcavam seu corpo que, até então, era só alma.
Vontades introvertidas de voar de cima do pé do Flamboyant para alcançar os espaços, as vontades do corpo e liberdades que lhe eram negadas. Flutuar por sobre as dores impressas, acenando para a própria imagem refletida nelas.
Por Wolney Fernandes
É bem real
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*INVISÍVEL,
Walderes Brito
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Pulga atrás da orelha; cheiro de gaveta de avó; apenas uma, entre dezenas de surras de infância remota; a certeza de que, cedo ou tarde, o computador vai comer um trabalho que você suou para fazer, acompanhada da sensação de que não fará outro bom quanto o que perdeu. Dúvida sobre as escolhas feitas; dúvidas sobre o que fazer agora; dúvidas sobre amanhã; coceira debaixo da pele; ferozes debates fantasiados em resposta a desaforos que ouviu e que não conseguiu responder na lalta, fervidos no ódio mortal e justificado da leseira do próprio cérebro. Água ja entornada em garganta seca; o arredondado do céu; cenas de uma história, até que a narrativa seja aprisionada em uma imagem fixa ou móvel e bem descrita - nanismo das visualidades imaginárias.
Por Walderes Brito
Por Walderes Brito








