Avesso

Dado à luz na caatinga, acabei dado a penumbras e nevoeiros. Sol, pra mim, evoca a seca de “70” narrada com amarguras e a do início dos anos 80, vivida na plenitude da aridez, com água regrada até pra beber e cozinhar, que dirá pra tomar banho... Céu azul e horizonte aberto, quiçá por isso, ao invés de encantamento, me dão tremor e enfado. Gosto mesmo é de nuvens gordas e de céu pardo, desses que quase se toca com a mão e que logo se derrama em aguaceiro, ao som de trovões graves e agudos, acompanhados de coriscos incendiando o breu. Cerração não me deprime. Dá até conforto: nada de suor, nada de pele crestada, nada de luz furando a retina. Até o sol fica bom de ver quando há uma cortina de nuvens que o converte numa espécie de lua, dessas que gostam de se mostrar dengosas, hipnotizando gentes e bichos. Na cidade, só vejo edifício de longe. O sol causticante do Agreste me viciou em horizontalidades. Normalmente, ignoro o que habita acima da minha calvície. Estrelas cadentes, acho até bonitas, mas não tenho paciência de ficar esperando com a cara pra cima. Resultado: só vi uma e mesmo assim porque me mostraram, numa peripécia amorosa nos matos gerais... Por essas e outras, minhas preferidas são as viagens ao infinito pelo avesso: de multidões a grupos, pessoas, um, membros, células, núcleos, ocos sem fim nem fundo.

Por Walderes Brito

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